Passaporte Vacinal
A União Europeia já adquiriu 4,6 milhões de doses extras para a realização de uma segunda campanha de reforço com a aplicação da quarta dose. Entre os países do bloco, cerca de 73% da população foi imunizada. A comunidade adotou a exigência de passaporte de vacina para a circulação interna. A OMS prevê que 50% da população europeia poderá ser infectada pela ômicron em até dois meses. Os países mais afetados pela nova cepa são a França com mais de 296 mil casos diários, Itália com 155 mil e Reino Unido com mais de 141 mil contágios nas últimas 24 horas. Na França, cerca de 5 milhões de pessoas recusam a imunizar-se. O presidente Emmanuel Macron disse que iria “incomodar” os negacionistas para promover a vacinação, o que o fez perder a popularidade nas últimas pesquisas de opinão para a candidata de extrema direita Marine Le Pen na disputa pela presidência. “O passaporte da vacina não é uma novidade. Por exemplo a febre amarela, que é uma doença com a qual a gente convive há bastante tempo, que tem vacina e se exige comprovante de vacinação para inúmeros países. Qual é a novidade? É a força da extrema direita com o seu negacionismo, que fez surgir essa falsa discussão: ou passaporte da vacina ou enfrentar a desigualdade. Isso é o pior dos mundos”, comenta Lúcia Souto, diretora do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES).
Apesar de ter vacinado mais de 60% da população, México enfrenta nova onda da covid-19 pela variante ômicron / Alfredo Estrella / AFP
A China voltou a confinar cerca de 20 milhões de habitantes e realizar testagens massivas como parte da política “covid zero” /STR /AFP
Lockdown e maiores restrições
Diante do ressurgimento de focos da covid-19, a China, que já vacinou 87% dos 1,4 bilhão de habitantes com ao menos uma dose das duas fórmulas, decidiu implementar o lockdown ou bloqueio total em três cidades. A nova etapa de isolamento social atingirá cerca de 20 milhões de habitantes e está ligada à política de “covid zero”, implementada pelo governo chinês desde o início da emergência sanitária. Há países que debatem medidas mais drásticas para conter o avanço do vírus. O presidente da Filipinas, Rodrigo Duterte, autorizou as autoridades de segurança a prender cidadãos que circulem pelo país sem ter se vacinado. Apenas 34% dos filipinos completaram o ciclo de imunização. No Canadá os legisladores discutem impor multas àqueles que não se vacinarem, que representam cerca de 6 milhões de pessoas. “A vacina não é 100% eficaz, ela é uma estratégia de saúde pública coletiva, então quanto maior o número de pessoas que se vacinam, maior a proteção da comunidade. Não é uma questão individual”, explica a professora da Escola Bahiana de Medicina, Maria Fernanda Grassi.
Movimento na Rodoviária do Plano Piloto durante o primeiro dia de funcionamento do posto de vacinação contra a covid-19 / Fecomércio-DF
Brasil como ator global
Enquanto várias farmacêuticas anunciaram que estão trabalhando para produzir até março novas doses com composições voltadas a combater a ômicron, a Fundação Oswaldo Cruz divulgou que o Brasil será capaz de distribuir 21 milhões de doses de fórmula nacional contra o vírus SARS-CoV-2, chegando a 130 milhões até junho. “E até o final do ano poderíamos dobrar essa produção, chegando a 300 milhões de doses. E nós podemos doar vacinas aos países que precisam. Com isso começamos a ter força política e social para virar o jogo a nível global”, defende Lúcia Souto. As duas especialistas insistem que não é a falta de efetividade das vacinas que deixa mais distante o fim da pandemia, mas sim a concentração das doses. Caso a imunização da população mundial aumentasse num nível mais acelerado que as infecções pela variante ômicron, poderíamos pensar num cenário em que a infecção causada por covid-19 torne-se endêmica, quando a presença do vírus é permenante e constante, mas não descontrolada. “Ao que tudo indica vamos caminhando para isso, mas eu não ouso dizer que será assim, porque essa infecção nos surpreendeu desde o início. Então neste momento, com os dados que nós temos, a ômicron é menos patogênica, embora muito mais transmissível que as outras. O que estamos vendo é uma avalanche de casos, mas vamos torcer para que ela continue nesse caminho: dando quadros respiratórios mais leves”, comenta Maria Fernanda Grassi.
